O estudo do espaço expositivo é parte essencial
do meu trabalho, é o que sempre guia as minhas criações.
A obra começa a surgir a partir do meu olhar, da minha
percepção sobre o que acontece no lugar, os
movimentos, as energias, os espaços cheios e os vazios,
os percebidos e os esquecidos.
O Itaú Cultural se encontra no centro nervoso da
cidade de São Paulo – na Avenida Paulista –
e é oferecido ao público com entrada gratuita.
A movimentação no saguão de entrada
é intensa, e em função da proibição
do fumo dentro do local a porta fica mais movimentada ainda,
pois é do lado de fora onde estão as lixeiras
cinzeiros. O que fiz foi reproduzir uma dessas lixeiras
e instalá-la logo na entrada do saguão, mas
do lado de dentro. Produzida em tule na cor verde-limão,
muito frágil e transparente, era quase uma miragem
para os fumantes. Estava lá, mas não podia
ser usada.
Descendo para o andar de baixo se encontravam inúmeras
obras de arte, muitas cores, muita informação
e nenhum banco para descansar. O que fiz foi reproduzir
um banco do arquiteto Mauricio Azeredo, presente no espaço,
mas num andar onde o público quase não passa
e onde há outros bancos e cadeiras para se sentar.
Instalei o banco encostado numa das paredes da exposição,
abaixo de um texto curatorial colado na parede. E o público
só podia vê-lo, observá-lo, mas jamais
se sentar nele.
Descendo mais um andar, se encontrava a sessão de
vídeos. Cada projeção de vídeo
possuía um pufe na frente. Somente um. E se o visitante
estivesse acompanhado? Enquanto um assistia confortavelmente
sentado, o outro tinha que ficar de pé. E mais uma
vez joguei com a imaginação e paciência
do espectador, produzindo um segundo pufe em três
sessões diferentes de vídeo, e todos feitos
de tule.
A última intervenção foi realizada
na Casa das Rosas, a poucos passos do Itaú Cultural.
Esse lugar é muito conhecido pelos lindos jardins
de rosas que possui, o que deu origem ao nome do lugar.
Lá instalei mais um banco, mas desta vez não
foi uma reprodução de um banco do lugar, produzi
um banco tradicional de praça, com encosto. Nesse
imenso jardim não há um banco sequer. E como
podemos desfrutar dessa linda paisagem por um largo tempo
sem um lugar para sentar?
A ironia das reproduções de mobiliários
surgiu em 2003 com a série de intervenções
Espectros, realizadas no campus da UFRGS, em Porto
Alegre. E, desde então, sigo trabalhando com os conceitos
do familiar e estranho, real e imaginário, presença
e ausência, arte e não arte, destituindo o
caráter utilitário e atribuindo valor estético
aos objetos.